sexta-feira, 6 de junho de 2008

Camané

Banda: Camané

Álbum: Pelo dia dentro

Música: Ela tinha uma amiga



Que a Mariza está longe de ser a melhor fadista portuguesa do nosso tempo já eu sei há muitos anos. Finalmente, o resto das pessoas começa a percebê-lo agora. Antes dela está a Kátia Guerreiro, a Amendoeira, a Muge, a Moura, e podia continuar, mas o espaço é pouco e o tempo é curto.

E não, não é elitismo meu, nem é qualquer outra forma de aversão pseudo-intelectual àquilo que está em voga. Posso dizê-lo com tanta presunção como certeza: a Mariza não presta – tem boa voz, pois tem, mas não canta bem, que é o que importa.

A voz fadista tem de ter alma, e a da Mariza tem apenas aparato – o show-off não é para qui chamado e para isso já temos a Celine Dion.

Ora, Camané, que até há uns anos cantava em tabernas alfacinhas por Lisboa adentro, é o extremo oposto dessa tal Mariza. Não inventa, não complica, não exibe; dá aos fados que canta o suficiente para que a música voe. O Fado, em Camané, tem Lisboa na voz.

Aqui apresento uma das melhores músicas dele e de José Mário Branco. É fundamental que seja ouvida com letra (*) já que o poema é brilhante e relata um triângulo amoroso invulgar (como o título deixa antever). A música é curta e só vale a pena ser ouvida dessa forma. É um pequeno esforço que vos peço.

(*) – deste esforço está obviamente excluído Pedro Costa, a esse dou-me por satisfeito que se dê ao trabalho de ler estas linhas

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que era quem me atendia quando eu telefonava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia para dizer que não estava
E quando eu insistia, e não desligava
Era sempre a Maria
Que me mentia e me consolava
E perguntava o que é que eu lhe queria

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que nunca sabia por onde ela andava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
De quem se servia quando me enganava
E quando eu lá ia, e não a encontrava
Era sempre a Maria
Que me dizia que ela não tardava
Que me jurava que ela voltaria

Quando eu ia buscá-la, e a gente saía
Era sempre a Maria que nos animava
Quando eu a convidava, e ela não queria
Era com a Maria que eu sempre dançava
E quando eu inventava uma melodia
Era sempre a Maria
Que me aplaudia, e ela não ligava
E eu ficava a cantar prá a Maria

No cinema, no escuro, quando eu a beijava
Ela empalidecia, a Maria corava
Ela não me ligava e adormecia
E era com a Maria
Que eu conversava
E que eu ficava quase até ser dia

Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia p´ra dizer que não estava
Até que outro dia ela me telefonou
E eu disse: Maria...
E eu disse: Maria!
E eu disse: "Maria, vai dizer que eu não estou!"