"Gostas de Fly?" porque houve alguém que o perguntou e houve outro alguém que fez disso mote para uma rubrica que já se estende à música, ao cinema e à bola. E por isso, um muito obrigado HD.
Esta semana o Holofote de Fly volta a incidir sobre a década de 80 iluminando mais uma das suas pérolas, The Ferris Bueller Day Off ou o Rei dos Gazeteiros na tradução (quase à letra) para as nossas salas.
O Rei dos Gazeteiros é um daqueles clássicos de culto da nossa juventude, trata-se de um filme que segue uma linha diferente das então comédias de adolescentes da altura, sem o despudor de Lemon Popsicle (Gelado de Limão) ou Porky’s, abandona a Brilhantina, as golas levantadas e as insinuações sexuais (que na altura faziam a delícia da malta nova – grande oportunidade de ver gajas nuas), deixa os 70 de vez na gaveta e encontra uma nova juventude mais sofisticada. Ferry Bueller é o exemplo claro disso, imediatamente nos provoca aquele click de “I wanna be that guy!”.
The Ferry Bueller’s Day Off, mostra-nos a epopeia de um jovem durante um bizarro dia em que se balda às aulas com todos os esquemas que monta para não ser apanhado por Ed Rooney (o director da escola cujo objectivo de vida é apanhá-lo) nem denunciado pela malévola irmã. Matthew Broderick é a alma do filme, talhado para este tipo de papéis está como peixe na água, deliciosos os pormenores em que fala para a câmara em jeito de documentário, inesquecível. Abandona a capa de Nerd e Inocente que vestiu em WarGames (grande post de Pombo), mantém o ar de inocente mas passa a ser um típico cool – capa que nunca mais despiu.
O Realizador era um então desconhecido John Hughes, o típico Family Movies Guy, produziu posteriormente o sucesso de bilheteiras Home Alone (e respectiva saga) e Beethoven. Em termos de realização pouco mais fez, jamais conseguiu duplicar o Fly de hoje.
Qualquer gajo que ronde os 30 anos que se preze jamais esquecerá o dia em que Ferris Bueller se baldou às aulas, o Ferrari escavacado (que nem era um Ferrari porque não havia $$), os esquemas, o Ed Rooney e o desfile que vos deixo abaixo (confesso que o desfile ainda tem um bocadinho de 70’s mas é só esta parte):
Se formos, agora a posteriori, analisar o que foi a carreira de Enzo Scifo, terei de aceitar que considerem que possa não merecer estar junto a alguns dos flyados com os quais aqui nos temos deliciado. Mas quem, em 1983, com apenas 17 anos, o viu pegar de estaca no então tubarão europeu RSC Anderlecht e, 1 ano depois, o viu comandar os Diabos Vermelhos no Euro 84, não pode, ainda hoje, ficar indiferente a um talento natural como o deste italo-belga (era filho de imigrantes italianos e também por isso, o seu futebol era produtos destas 2 escolas)
Um dos que compartilha a minha paixão é Luis Freitas Lobo que se refere assim a Scifo no seu site: “parecia ter olhos nos pés, jogava com a precisão de um relógio suíço, driblava com a malícia dos latinos e ocupava os espaços com o frio sentido táctico anglosaxónico. Todos o viram como o novo príncipe do futebol europeu”. Lapidar! Era o meu jogador de eleição da época. De tal forma que invejava solenemente um puto lá da escola que tinha a maglia 14 do Inter já com o nome Scifo (era o início da febre das camisolas personalizadas). Mas após 4 épocas e 3 Ligas Belgas ao serviço do Anderlecth e disputado por mais de meia Europa, a sua ligação a Itália falou mais alto e ingressou no Inter. Aí começou a esfumar-se o seu encanto e a perder-se a sua magia. Lamentou-se o velho Trap que o terá contratado demasiado cedo. Daí em diante a sua carreira assemelhou-se a uma montanha russa, com mais baixos que altos em clubes de 2ª linha da Europa como Bordéus, o Auxerre (Championnat), o Torino (Copa Itália) e o Mónaco, regressando ao seu Anderlecht em 1997 para terminar a carreira (embora depois ainda tenha tentado fazer 1 época no Charleroi mas sem efeito devido a lesão).
Só ao nível da selecção se manteve sempre em alta. Depois do debut no Euro 84, participou ainda 4 Mundiais (86, 90, 94 e 98), com especial destaque na terra dos Aztecas, onde na fabulosa equipa de Jean Marie Pfaff, Eric Gerets, Georges Grun, Leo Clijsters (o pai da Kim Clijsters), os irmãos Franky e Leo van der Elst, o fabuloso Vercauteren, o letal Vanderbergh e o mítico Jan Ceulemans, apenas foi parado por El Dios na semi-final. Verdadeiros Diabos Vermelhos que me marcaram a imberbe juventude. Que este post seja também uma devida homenagem ao futebol belga dos eighties que muitos de vocês não tiveram hipótese de ver e, dificilmente, voltará a honrar a tradição. (agora apenas um parêntesis para insultar o Lozano, um maldito espanhol que, na altura no Anderlecht, roubou ao glorioso a Taça Uefa de 1983).
Deixo-vos então com 3 curtíssimos vídeos que mais não são senão o espelho do que foi a carreira de Scifo, ou seja, um tremendo potencial do qual não verão seguimento...se Scifo fosse português, eu baptizá-lo-ia de Hugo Leal.
Um jogador como Hierro nunca será consensual para a tribo do futebol. Como Roy Keane ou Patrick Vieira a nível mundial ou como Humberto Coelho, Oceano ou Jorge Costa à nossa escala, ora serão idolatrados (pelos seus) ora serão odiados (pelos adversários...a não ser que depois se transfiram para esses rivais). Se estivéssemos no GDF Música, teria que citar RBF e dizer que nem todos estão preparados para entender Hierro. Mas para os madridistas (e para mim) será sempre, El Gran Capitán, uma lenda Merengue, com um registo absolutamente fantástico no Bernabéu (desta vez as conquistas vêm no vídeo para que percebam melhor) e que valeu tanto na cabine como nas 4 linhas.
Após a estreia em La Liga com as cores do Valhadolid, logo se percebeu que havia qualidade para muito mais. Percebeu o Real Madrid, percebeu o Atlético Madrid e percebeu o Barcelona. Um ainda novato nestas lides, Gil y Gil, tentou torná-lo colchonero mas o Calderon era palco menor, um Joan Gaspart, ao que consta, enganou-se no irmão e contratou outro Hierro para a Catalunha e quem adquiriu La Locomotiva foi mesmo o Real Madrid.
Mas se Hierro é uma Locomotiva então terá que ser um Alfa Pendular...e na classe Conforto. É que para além de uma grande envergadura e ter um forte jogo de cabeça, Hierro era elegante, tinha sobriedade, colocação no terreno e capacidade para sair a jogar de trás como poucos. Simplicidade e Inteligência, dois dos aspectos mais decisivos para um futebolista de top (vidé Guardiola, Makelelé ou Paulo Sousa) Começou como médio defensivo mas com tamanha capacidade para ler o jogo, depressa recou uns metros no terreno, onde refinou ainda mais toda a sua capacidade. Cobrava bolas paradas com mestria e fazia lançamentos de longa distãncia dignos de um Bret Favre dos tempos áureos. Quem seguia os blancos ou a furia espanhola só tinha que esperar pelo passe longo para um tal de Raul Gonzalez compor o ramalhete. Tinha uma noção global do jogo que ia muito para além do defesa tradicional, se quiserem, era Un Defensa com Alma de Delantero.
Com alma e capacidade de liderança, pois impõs-se rapidamente em Madrid. De tal forma que até eu, com uns imberbes 14 anos, me lembro da estreia deste senhor. Ficou em Chamartin durante 14 anos, saindo depois para 1 ano nas Arábias mas, querendo terminar no Velho Continente, alinhou ainda 1 ano no Bolton (recusou a renovação), o suficiente para levar o clube à Taça UEFA.
Ao serviço da então Fúria Espanhola (hoje trocaram a Fúria pelo Carrossel), registou 89 internacionalizações, sendo um dos poucos a conseguir alinhar em 4 Mundiais (Italia ’90, Estados Unidos ’94, França ’98 e Coreia-Japão 2002) e sendo, à data da sua saída, o melhor marcador de sempre de La Roja com 29 golos (foi depois ultrapassado...sim, pelo Raul, quién más?!).
Transpondo Hierro para o nosso futebol, seria um Coluna. Daqueles que acabam por pesar mais que a camisola, que têm Alma até Almeida, que permitem que haja Eusébio, que haja Raul, que nos mostrem que a Mística não é apenas um conceito abstracto.
The Good Will Hunting revela em todos os seus contornos toda a magia do Cinema, sendo a sua génese por si só uma história digna de um filme.
Matt Damon e Ben Affleck eram então dois jovens amigos de infância de Boston, com fugazes entradas num ou outro filme. Entretanto escrevem um argumento, que a Miramax (conhecida pelos seus filmes mais independentes) aceita produzir, resultado: um filme soberbo, não só escrito mas protagonizado pelos 2 jovens, que marcou a edição de 1998 dos prémios máximos do cinema. Nomeado para 9 Óscares (entre eles melhor filme), onde arrecadou 2 estatuetas (3 em abono da verdade), uma para Robin Williams (à quarta foi de vez - melhor actor secundário) e uma (duas) para o melhor argumento original (adivinhem para que dupla), garantindo assim a entrada nos eternos de Hollywood, relembro que isto não é o filme.
O filme conta-nos a história do jovem sobredotado Will Hunting (Matt Damon), que prefere trocar o seu génio matemático, por uma vida boémia igual à dos seus medíocres amigos, e a tentativa de um professor Universitário e de um psicólogo o levarem a assumir aquilo para que foi predestinado, obviamente com Boston e todo o mundo académico como pano de fundo.
Os diálogos do filme são fabulosos conseguindo até tornar a própria representação (mais ou menos atabalhoada) de Affleck convincente. Mas os momentos que nos levam a querer ver e rever o filme, são os duelos entre Robin Williams e Matt Damon, todo filme converge para essas cenas, tornando-as de facto inesquecíveis. Williams no papel do psicólogo prova mais uma vez que não é só no registo cómico que é brilhante, já o tinha feito no Clube dos Poetas Mortos e volta a fazê-lo. De vez em quando gosta de levantar o dedo entre Flubbers, Jacks e Jumangis e chamar-nos para vermos grandes lições de representação, mostrando-nos a sua versatilidade (já em Good Morning Vietnam tinha atingido o auge). Damon é imaculado no papel que escreveu, valeu-lhe uma nomeação para melhor actor (muito superior a Affleck). Minnie Driver (também nomeada para Oscar neste filme) além do jovem Will, consegue-nos seduzir implacavelmente, Skylar é a simbiose perfeita entre dureza e doçura, cada plano dela transpira sensualidade.
O filme é realizado por Gus Van Sant (nomeado para melhor realizador), que tentou desenhar o mesmo modelo em Finding Forrester (um filme simpático) e voltou à escola com Elephant (Palma de Ouro em Cannes).
De certo que muitos de vocês já viram O Bom Rebelde - título com o qual fomos presenteados - se não viram é obrigatório, um filme que vale mesmo a pena ver.
Quem visse os dois miúdos abaixo a receber o Óscar, jamais pensaria que era para melhores argumentistas, num filme que eles próprios protagonizaram, mas é essa a Magia do Cinema:
Se há motivo para os ex-jugoslavos serem, no futebol, muitas vezes apelidados de brasileiros da Europa, Dragan Stojkovic é, seguramente, um deles. A este prodígio, com nickname retirado de cartoon de Hanna & Barbera, bastaram 3 treinos para assinar com um clube de 1º divisão, o local FK Radnički Niš, e, com 18 anos, era titular na selecção jugoslava no Euro 84.
Era um predestinado, com uma capacidade técnica e uma habilidade só ao alcance dos eleitos. Fazia do terreno de jogo um playground, como diriam os americanos, numa aura mais basquetebolista; ou, se quiserem, ao contrário da F1, onde, em determinadas curvas, se distinguem os homens dos rapazes, dentro nas 4 linhas, Piksi continuava a ser o menino que jogava futebol de rua com a malta mais crescida.
A esta altura e porque estamos a falar de alguém que não será Top of Mind para o adepto comum, vocês estão a pensar que estou a pintar demasiado a manta (lá está o Zé Barros do baixinho) e desejosos de ver o vídeo para tirarem as vossas conclusões... Mas esperem mais um pouco e deixem-me colocar mais uma pitada de sal e pimenta para temperar a mussaca (prato típico sérvio). É que estamos a falar de um menu que, tinha traços de Zidane como entrada, misturava um pouco de Del Piero e Roberto Baggio como prato principal e apresentava como sobremesa uns laivos de Laudrup.
5 épocas após a estreia, ingressou no mítico Red Star Belgrade, onde esteve 4 épocas, mas onde bastaram apenas 2 para se tornar capitão de equipa e uma lenda – o reconhecimento veio com a atribuição da Zvezdina Zvezda (a estrela do Estrela Vermelha), título apenas a tribuido a 5 jogadores em toda a história do clube (e nenhuma delas ao plantel que venceu a Champions em 1991 – fala-se em poderem vir a atribuir a Dejan “Il genio” Savicevic). Em Belgrado venceu 2 títulos e foi considerado MVP outras tantas vezes. Saíu em 1990 para o fabuloso Olimpique Marseille de então, onde alinhavam, entre outros, Carlos Mozer, Manuel Amoros, Basile Boli, Abedi Pele, Chris Waddle e Jean Pierre Papin. Quis o destino que, meses depois, chegasse à Final da Champions...para defrontar o “seu” Estrela Vermelha, onde tinha deixado Belodedic, Jugovic, Savicevic, Mihajlovic, Prosinecky e Pancev. Piksi tinha começado o seu calvário de lesões no joelho direito e começou a partida no banco. Entrou no decorrer do jogo e, quando nomedo para cobrar uma das grandes pennalidades no desempate, recusou-se – contra o seu Estrela Vermelha não o fazia! Resultado: Estrela Vermelha campeão da Europa e Stojkovic emprestado ao Verona. Regressou no ano seguinte ao Velodrome mas 2 anos depois fartou-se (há até quem fale em agressões dos franceses) e rumou, ainda com 25 anos, ao futebol japonês. Destino: o Nagoya Grampus Eight, treinado por Arséne Wenger (o homem está em todas) e onde alinhava o também mítico Gary Lineker. Aí permaneceu durante 7 épocas, conseguindo 1 distinção como MVP e várias nomeações para o 11 ideal da prova. Terminou aí carreira em 2001 e, após uma passagem como presidente do Red Star Belgrade, é actualmente, treinador do Nagoya – não é só João Simão da Silva que tem 2 amores.
Antes do vídeo apenas uma menção ao Mundial de 1990. Capitaneada por Stojkovic, o planeta viu das melhores selecções jugoslavas de sempre. Até aqui o vosso amigo já tinha a Jugoslávia como underdog da bella Italia quando, nos ¼ final, surgiu um tal de Goycochea e interrompeu o sonho da marca dos 11 metros...e porque os génios também falham, Stojkovic desperdiçou e Maradona perdeu a aposta para Ivkovic.
Agora sim, vejam o vídeo! Depois falamos. Ah, e sim, há mais uns quantos destes.
Ainda hoje o nome Daniel Larusso nos dá aquele friozinho na barriga quando o recordamos a entrar para o ultimo Round do torneio contra o mais temível dos Cobra Kai (sweep the leg). Ainda hoje nos dá um arrepio na espinha quando o vimos abrir os braços para fazer aquele mítico golpe invencível, desafio qualquer um de vós mudar de canal nessa cena... humanamente é impossível . Ainda hoje Mister Miyagi nos relembra uma fonte de infinita sabedoria, que consegue transformar um mero jovem numa temível arma de Karate treinando-o a encerar carros (Wax on, Wax Off) e a pintar cercas, é ele a grande personagem de Karate Kid que valeu a Pat Morita, que chega a roçar o carisma de Bruce Lee, o Óscar de melhor actor secundário.
Karate Kid teve esse condão, de nos ter feito sonhar, vibrar... desta vez não era o tipo cheio de estilo, força e poder que era o nosso herói, era precisamente o contrário, um puto igual a todos nós, um teen anti-herói (apesar dos 22 anos de Ralph Macchio!!) e isso fez a diferença, qualquer um de nós podia ser o Daniel Larusso. No dia seguinte a ter sido visto Karate Kid, os pátios das escolas pareciam colónias de Garças com toda a gente a tentar fazer o tal golpe impossível de defender, inesquecível. Juntou o main stream do Cinema Americano com a mística das Artes Marciais. Inclusive a eterna namoradinha dos filmes dos Anos 80 e 90, Elisabeth Shue estreia-se em Karate Kid.
Foram feitos mais alguns filmes da Saga, mas o impacto do primeiro jamais foi igualado e ao quarto filme já nem Daniel San entrava, muito pobre... Dos restantes fica para a memória a musica Glory of Love de Peter Cetera de Karate Kid II.
Curiosamente Ralph Macchio (Daniel San) e o Realizador John Avildsen surgem no Cinema pela porta grande e têm percursos semelhantes, Macchio integrou o elenco de Luxo dos Outsiders (Os Marginais) de Coppola (Tom Cruise, Matt Dillon, Patrick Swayze) e posteriormente a sua carreira cingiu-se à saga Karate Kid. Já o realizador, após alguns filmes de 2ª linha, em 1976 arrisca no argumento de um jovem chamado Sylvester Stallone e realiza a obra prima que é Rocky (as semelhanças entre o evoluir das personagens de Rocky e Daniel San não são coincidência), posteriormente além de um pobre Rocky V, o melhor que conseguiu foram os 3 primeiros Karate Kids (o desespero do homem foi tal que no final de 90 juntou Pat Morita e VanDamme - Resultou num Inferno - titulo do filme).
Apesar de tudo isto Karate Kid - O momento da Verdade (até o título em Português é mítico), jamais merece ser subestimado, por tudo aquilo que nos fez sonhar. Obrigatório e transversal a todos nós.
A par de Top Gun este foi provavelmente um dos filmes que mais me fez vibrar numa sala de cinema.
Quem viu jamais esquece o caminho da desintoxicação de Renton, acompanhado pelo declínio de Spud, Sick Boy ou Tommy. Quem viu jamais esquecerá o psicótico Begbie a enterrar uma caneca de cerveja no pescoço de um transeunte em troca de um mero encontrão acidental. Quem viu jamais esquece a violência das imagens entre bebés, gatinhos e doses de cavalo a furarem as veias de jovens junkies. Para quem não viu, fica a saber que tem a oportunidade de ver a casa de banho mais imunda da Escócia.
Trainspotting é um filme de escolhas, escolhas entre um emprego das 9 às 5, um seguro, um carro e um par de filhos ou o sabor de viver alucinando numa viagem eterna a bordo da heroína. Ewan McGregor no seu 1º grande papel, enfrenta esse dilema.
É um filmes mais marcantes dos anos 90, realizado pelo recém Oscarizado Danny Boyle, conta-nos a história do jovem escocês Renton (Ewan McGregor) e do seu grupo de amigos junkies, dados aos prazeres da heroína e a esquemas de dinheiro fácil. Passa-se em Edimburgo regado com aquele sotaque inconfundível.
Só as personagens tornam o filme fantástico (graças ao livro original de Irvine Welsh que o tornou num escritor de culto), além do protagonista temos o tipo parvo (inesquecível a cena de Spud com os lençóis), o gajo dos esquemas, o menino bonito que cai no mundo da droga, mas o grande destaque vai para Robert Carlyle que interpreta o louco/violento/alcoólico Begbie, um tipo detestável que orgulhosamente faz questão de proclamar o seu desprezo pela heroína no meio dos assaltos, agressões e bebedeiras.
Boyle faz-nos viver intensamente cada recaída de Renton, cada ira de Begbie ou cada esquema de Sick Boy. Tudo isso é devidamente acompanhado por uma banda sonora que não nos dá descanso em qualquer minuto do filme, onde encontramos Lou Reed ou Iggy Pop com uma música que diz quase tudo sobre Trainspotting - LUST FOR LIFE.
Na minha opinião Trainspotting é um statement anti-droga altamente recomendado.
Não sei se Daniela Mercury alguma vez viu jogar George Weah mas, se o fez, seguramente que o tema “Pérola Negra” lhe é dedicado, ou não fosse ele a maior pérola alguma vez nascida na Libéria. Aliás, não fosse Weah e provavelmente nem sabíamos da existência de tal nação. E é curioso que, no ano em que a maior pérola negra do nosso futebol conquista definitivamente o planeta no campeonato do mundo, poucos meses depois nasce este nosso ilustre flyado de hoje. Foi uma espécie de sucessão ou, se quiserem até, de homenagem do nosso Eusébio, já que Weah nunca teve oportunidade de disputar um Mundial.
Este liberiano era um daqueles jogadores que aparecem de tempos a tempos, uma vez que reunia uma série de características que nos permitem rotulá-lo de fora de série. Como avançado, era um jogador completo. Era rápido, incisivo e felino mas ainda assim elegante. Tinha o porte atlético e físico dos africanos, a que juntava uma capacidade técnica soberba, fosse através da recepção orientada, da rotação, da finta, do poder de explosão, da finalização, ou somente da finta de corpo, das danças de ritmos quentes, da kizomba ou do kuduro aplicadas ao desporto-rei.
Weah começou em desconhecidos clubes locais mas começa a dar cartas no velho continente no principesco AS Mónaco, ou não fosse o treinador monegasco alguém quem hoje reconhecemos como um dos maiores scouters do futebol mundial: Arséner Wenger. No estádio Louis II formou-se então uma equipa que muitos ainda se lembram e que incluia alguns dos históricos do clube monegasco: Ettori, Sonor, Petit, Thuram, Gnako, Passi, Djorkaeff, Rui Barros e a sua muleta de ataque, Youssuf Fofana. Após 4 épocas mudou-se para a capital francesa, onde, orientado por Artur Jorge (ainda com cérebro) e acompanhado de Lama, Ricardo Gomes, Alain Roche, Paul le Guen, Guérin, Raí, Valdo e Ginola, se viveram os melhores momentos do PSG – conquistas da Ligue 1, da Coupe de France e presenças brilhantes na Champions. Mas nem Paris tinha dimensão para o talento de Weah e como Milão ainda chorava o abandono prematuro de Van Basten, em 1995 rumou a San Siro para representar os rossoneri. Rei morto, rei posto! Partilhava então o balneário com outros imortais do pontapé na bola como Franco Baresi, Paolo Maldini (assim se vê a longevidade desta lenda), Desailly, Donadoni, Savicevic, Boban ou Roberto Baggio. E foi de tal ordem que, nesse ano, foi eleito Melhor Jogador de África, venceu a Bola de Ouro da France Football e seria consagrado pela FIFA como o Melhor Jogador do Mundo, tornando-se o primeiro e único jogador Africano de sempre a conquistar este troféu. Mas o palmarés não estaria completo sem ser colocado na lista dos futebolistas do Século FIFA, sendo-lhe mesmo atribuído o prémio “Melhor Jogador Africano de Todos os Tempos. No ano seguinte e mesmo apesar de ter agredido barbaramente Jorge Costa num FCP x AC Milan (ou, se calhar, por isso mesmo), foi-lhe atribuido o Prémio Fair Play pela FIFA. Permaneceu 4 anos e meio em San Siro e numa fase já descendente rumou ao Chelsea, depois ao Man City e ao Olympique Marselha, terminando a carreira seduzido pelos milhões árabes do Al Jazeera.
Depois de retirado, dedica-se única e exclusivamente ao seu país natal. Apesar de nunca ter conseguido a disputar um Campeonato do Mundo, a sua pátria é tudo. Na CAN 1996 na África do Sul, pagou do seu bolso todas as despesas da Selecção Liberiana na competição. Embaixador ONU desde 1997, é também presidente/fundador do Júnior Professionals, clube da cidade natal Monróvia, e um dos grandes impulsionadores do futebol no pais. A sua jornada patriótica conheceria novo episódio com a sua candidatura à presidência da Libéria em 2005, acabando derrotado pela economista Ellen Johnson Sirleaf, num acto eleitoral muito contestado ainda hoje, mas que não demoverá com certeza Weah de concretizar o sonho de presidir a sua pátria.
Observem então alguns momentos de puro deleite pelo jogo, devidamente comentando por outras estrelas milanistas da altura.