quarta-feira, 29 de abril de 2009

GDF - Futebol - Jornada 24

Ruud Gullit – Futebol Total

A escolha de Ruud Gullit para ser um dos flyados demorou algum tempo porque me é muito complicado falar sobre ele, descrevê-lo. Isso sucede pela admiração e, sobretudo, pela dificuldade em catalogá-lo ou rotulá-lo como jogador.
É que mais que um jogador, Gullit era, sobretudo um grande atleta. Creio sinceramente que, se não fosse no desporto rei, Gullit pode ter sido um atleta de eleição em várias outras modalidades. Tinha uma compleição física, uma coordenação motora, uma inteligência e concentração ao nível da elite. Era uma mistura de culturas e influências (pai oriundo do Suriname e mãe holandesa) que resultaram num cocktail explosivo e de difícil definição. Não é seguramente por acso que foi um dos grandes jogadores da história do futebol laranja (e dos anos 80 em particular) que não tinha a escola, o rigor, o modus operandi do Ajax. Era esse lado de "bom selvagem" que eu tanto apreciava no Bob Marley do pontapé na bola.

A sua versatilidade era tal que jogou em posições tão diferentes como médio ofensivo, pivot defensivo, líbero, ala direito ou ponta de lança. E sempre com rendimento de alto nível. Ainda hoje não sei exactamente em que posição rendia mais ou, visto por outro ângulo, em que dava mais espectáculo. Talvez não fosse nota 10 em nenhum dos capítulos do jogo mas também não conhecia classificações abaixo da nota 8. Digamos que, se fosse um país, seria um qualquer país tropical, com baixa amplitude térmica e destino para todo o ano. Impulsão, jogo aéreo, remate, técnica qb, capacidade de pressão, velocidade e perfil de liderança, ou não tivesse sido capitão da Samp, da Chelsea e da selecção Holanda (no Milan havia um tal de Franco Baresi).
Embora com características bem diferentes, só me recordo de outro jogador de tão difícil descrição, o espanhol Luis Enrique. Também jogava de lateral direito a ponta esquerda e com uma intensidade de jogo que fazia jus á lendária fúria espanhola, tão habitué da roja.

A nível de clubes, a sua carreira começou no modesto HFC Haarlem, ingressando depois no Feyenoord (1 campeonato), onde alcançou o reconhecimento doméstico. Daí rumou ao PSV (2 campeonatos), clube que lhe permitiu o reconhecimento internacional e levou a que o Milan abrisse os cordões à bolsa para o contratar.
No AC Milan, Gullit atingiu o auge da carreira, fazendo parte da, para mim, melhor equipa de sempre (3 scudettos, 2 champions leagues, 2 taças intercontinentais, 2 supertaças europeias e outros títulos domésticos). Era o futebol total do trio holandês adaptado ao futebol científico de Arrigo Sacchi que havia introduzido a marcação à zona.
Após 6 anos em San Siro, o seu joelho direito começou a ceder e acabou saindo para a Samp. Ídolo novamente em Génova (taça de Itália, 3ª posição na Serie A e golo decisivo na remontada de 3-2 da Samp frente ao seu Milan), levou a que os rossoneri o resgatassem. Ainda assim, ficou somente meia época, regressando a Génova. Terminava o seu périplo no calcio...mas não no futebol de alta competição.
Como pioneiro da tentativa do futebol inglês começar a resgatar grandes talentos europeus para dar outra dimensão e beleza ao seu futebol, Gullit ingressou no Chelsea. Aí permaneceu durante 3 épocas, terminando até como jogador-treinador e vencendo a FA Cup nessa condição. Apesar da idade, ainda deu outro estatuto à então ainda emergente Premier League. Abriu as portas a Zola, Vialli e Bergkamp entre outros e acabou até nomeado com 2º melhor jogador da competição, logo atrás do intratável Eric Cantona.

Também na Selecção deixou a sua marca, capitaneando a selecção laranja para a sua maior (e única) conquista de sempre a nível de selecção A: o Euro 1988. Comandou as tropas e na final, puxou dos galões, marcando o golo inicial e depois, seguramente, batendo palmas ao mais famoso volley da história do futebol, protagonizado por Marco Van Basten.

Longas mas merecidas linhas para alguém que marcou o futebol moderno. Para além dos títulos colectivos, Gullit coleccionou inúmeros prémios individuais, dos quais se destacam 2 FIFA World Player of the Year, 1 Bola de Ouro da France Football e presença nos 100 melhores jogadores de sempre nomeados pela FIFA.

A juntar a tudo isto, estamos perante um dos primeiros fenómenos de marketing. Quem não se lembra dos bonés laranjas, com longas tranças, que invadiram a Alemanha no Euro 88 e que ainda gerou uma bela disputa judicial aquando do seu divórcio (alegava a esposa que a ideia tinha sido dela)?

Para vos tentar passar um pouco da minha admiração e para que a compreendam, deixo-vos 3 vídeos que mostram o quão completo era Gullit e permitem ver a evolução da carreia. Um 1º vídeo com o seu início no PSV, um 2º vídeo com um medley Milan/Samp/Holanda e um vídeo final alusivo à sua estadia em Stamford Bride (último minuto e meio).
Total Footbal do inventor da expressão Sexy Football (adjectivando a seleção portuguesa no Euro 96)








5 comentários:

FN disse...

Grande grande post.



Gullit foi um dos melhores que vi jogar. Duas imagens de marca, os cabeceamentos com aquele gesto do gajo com a trunfa, inesquecível... e o ar desajeitado que ele tinha mas que na realidade era um misto de força e técnica. Antes de Zizou ter imortalizado o nº5, Gullit imortalizou o 4 (penso que foi no Chelsea).



Os videos são fantásticos, nem que seja para reverem o Lombardo J



Pouco mais há a acrescentar ao que foi dito, muito bom!!!



Nando o Gullit é o impulsionador no negócio que nos vai tornar ricos...

Master Aucrun disse...

Eu lembo-me bem daquelas tranças ... um autentico paraiso as espécies mais pequenas...

Fora isso, um grande jogador ... um autentico Predator Laranja ... um exemplo raro de técnica, postura, e pulmão num só corpo humano ... um dos maiores gomos da Laranjinha Mecânica, sem duvida ...
Lembro-me perfeitamente de o ver jogar ao lado de Rijkaard, Van Basten, Koeman , Van’t Shipp e outros citrinos ...
Lembro-me da simplicidade quando era suposto ser simples ... da técnica apurada quando tinha de “inventar” uma jogada qualquer ... do instinto predatório quando tinha de “matar” um jogo... do estilo limpo que incutia à sua presença em campo ....
Longas e merecidas linhas, sem duvida para um grande icon do futebol mundial ... o Predator Laranja.

fatassa disse...

Grande Rudd! Jogava ao som do reggea! Ele ainda treina algum clube?

... disse...

Fatassa, julgo que não. Que estava nos LA Galaxy mas que já saíu.

LL disse...

Gullit foi um dos responsáveis por gostar do futebol Holandês. Aquele trio era fantástico. Em crescendo Rickjard - Gullit - Van Basten

A sua presença no meio campo com uma visão de jogo muito boa. A sua tecnica (e a sua cabelaira) foram imagens que nos marcaram.

Bom jogador e bom fly