
No panorama tradicionalmente pesado do Cinema Europeu, nos Balcãs há um raio de luz que desde 1978 entre Palmas e Leões D'Ouro acumuladas vem escrevendo e realizando verdadeiras Obras Primas.
O seu sucesso levou-o aos Estados Unidos onde deu aulas de realização e fez alguns filmes, mas é a realizar na sua língua e no seu país de origem (nasceu Jugoslavo mas agora é Bósnio) que Emir Kusturica, um dos meninos de ouro de Cannes, brilha.
Os seus filmes hipnotizam-nos pelas imagens insólitas, que nos são contados a um ritmo frenético, pelo humor negro que não desdenha em utilizar e pela constante referência à comunidade cigana dos Balcãs que marca a cultura desta região, e que ninguém como Kusturica jamais ousou caracterizar.
À parte de tudo isto, mas assumindo um papel principal, está a musica gritada e dançada pelos Non Smoking Orchestra, frenética banda onde Emir Kusturica também toca e que pinta e dá cor a alguns dos seus filmes. Mais que uma simples banda Rock os Non Smoking Orchestra são punk, jazz, folk, ciganos bebendo alguma melancolia da inevitável influência Asiática. Ouvir as composições de Bregovic ou os Non Smoking Orchestra nos filmes de Kusturica devia ser uma aula obrigatória para qualquer estudante de cinema aprender o efeito que a musica tem num filme. O teaser enviado é precisamente uma das musicas da sua banda que vos desafio a ouvir.
Gato Preto, Gato Branco é um dos melhores filmes de Kusturica, o ideal cartão de visita deste Cineasta, tem todo o seu timbre elevado ao expoente máximo, mas desta vez contando uma simples história de amor. Foi lançado em 1998 e é um sério desafio aos nossos sentidos. A cor, o som, os instintos de uma cultura, o insólito de um povo está tudo lá devidamente teatralizado e carregado de humor, é só ir explorando o filme e mais cedo ou mais tarde estarão com o chamado sorriso parvo colado na boca durante as pouco mais que duas horas que o filme dura. Não se admirem se no final do filme sentirem uma louca vontade de lhe dar com a dança da placa gráfica, fica o aviso.
Um dos destaques deste filme é uma cena que certamente figura como uma das mais belas cenas de amor alguma vez colocadas numa tela. Prova que a paixão e o desejo podem ser descritos da forma mais simples, e Kusturica fá-lo com Girassóis, imperdível.
Quem gosta de cinema tem que obrigatoriamente fazer uma viagem pelo mundo de Kusturica e conhecer gente completamente nova...mas louca. Fica um cheirinho.
3 comentários:
"Gato Preto, Gato Branco" é uma ode ao anarquismo: mundialista e irracional. Ainda assim, não acho o melhor de Kusturica - o "Underground" é soberbo.
Eh pá, só uma escrita cativante e envolvente como esta (parabéns LauroNeves) me convence que isto é uma cena de amor.
Confesso que me começo a sentir um analfabeto nesta área. Depois de não ter visto Tarantino tb nunca vi Kusturica. Pf, ajudem o vosso amigo a fazer-se homem e tragam os DVDs.
É um grande filme de facto. E gostei bastante do texto grande FN!!
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